Ao longo da história, inúmeras mulheres contribuíram para o avanço da ciência, da educação e da saúde no Brasil, abrindo caminhos em áreas antes restritas aos homens. Entre elas, destacam-se Nise da Silveira, Bertha Lutz e Rita Lobato — três brasileiras que, com coragem, sensibilidade e inteligência, romperam barreiras e deixaram legados que ainda inspiram gerações.
Nise da Silveira: a revolução da afetividade na psiquiatria
Formada pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1926, Nise da Silveira tornou-se uma das maiores referências da psiquiatria brasileira. Desde o início de sua carreira, posicionou-se contra os tratamentos agressivos usados na época, como internações forçadas, eletrochoques, insulinoterapia e lobotomias, que eram práticas comuns nos hospitais psiquiátricos.
Em contrapartida, Nise acreditava na força da expressão artística e do afeto como formas de tratamento. Criou, no Rio de Janeiro, o Setor de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação do Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, onde substituiu os métodos violentos por atividades artísticas, pintura, modelagem e convivência com animais.
Foi também pioneira na introdução da psicologia junguiana no Brasil, baseando seu trabalho nas ideias do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Além disso, desenvolveu estudos sobre a relação entre pacientes e animais, que ela chamava de “co-terapeutas”, reconhecendo o papel terapêutico desses vínculos afetivos.
O impacto de sua abordagem ultrapassou os limites da medicina. Nise da Silveira foi homenageada com prêmios e títulos em áreas como saúde, educação, arte e literatura, e inspirou a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas no Brasil e no exterior, como o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. Sua trajetória tornou-se símbolo de humanização na saúde mental.
Bertha Lutz: a cientista que lutou pelos direitos das mulheres
Bertha Maria Júlia Lutz foi uma das principais vozes do movimento feminista e científico brasileiro. Em uma época em que a presença feminina nas universidades e na política era quase inexistente, ela defendeu a emancipação das mulheres em todas as esferas da sociedade.
Em 1919, tornou-se a segunda mulher brasileira a ingressar no serviço público, ao assumir o cargo de bióloga no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Nesse mesmo período, criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, com o objetivo de promover o acesso das mulheres à educação e ao trabalho.
Além de cientista, Bertha também foi advogada e política. Como deputada federal, lutou pela aprovação de leis que garantissem igualdade salarial, licença-maternidade de três meses e redução da jornada de trabalho, que, na época, chegava a 13 horas diárias.
Sua atuação ultrapassou fronteiras. Em 1952, representou o Brasil na Comissão de Estatutos da Mulher da ONU, criada por iniciativa própria, e foi reconhecida internacionalmente com o título de “Mulher das Américas”.
Bertha Lutz é lembrada como uma mulher à frente de seu tempo — uma cientista que uniu o conhecimento técnico à militância pelos direitos humanos e pela igualdade de gênero, influenciando gerações de pesquisadoras e lideranças femininas no país.
Rita Lobato: a primeira médica do Brasil
A trajetória de Rita Lobato Velho Lopes também é um marco na história da ciência e da luta das mulheres por espaço no ensino superior. Nascida no Rio Grande do Sul, ela se tornou, em 1887, a primeira mulher a se formar em Medicina no Brasil — e a segunda em toda a América do Sul.
Rita cursou Medicina na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e concluiu o curso, que durava seis anos, em apenas quatro anos — um feito notável em uma época em que o ingresso feminino nas universidades enfrentava forte resistência social.
Como médica obstetra, atendeu mulheres de diferentes classes sociais, oferecendo consultas e medicamentos gratuitos. Sua prática profissional foi marcada pela dedicação ao cuidado humanizado e pelo compromisso com o acesso à saúde para todas.
Além da atuação médica, Rita Lobato também participou de movimentos feministas, defendendo o direito ao voto das mulheres e a ampliação da presença feminina na vida pública. Em 1934, foi eleita vereadora em Rio Pardo (RS), tornando-se uma das primeiras mulheres a ocupar um cargo político no país.
Legado e inspiração
As trajetórias de Nise da Silveira, Bertha Lutz e Rita Lobato representam muito mais do que conquistas individuais. Elas simbolizam a força, a resistência e a inteligência das mulheres brasileiras que desafiaram padrões e abriram caminhos para futuras gerações de cientistas, médicas, professoras e pesquisadoras.
Essas pioneiras provaram que a ciência e o conhecimento não têm gênero — e que o avanço da sociedade depende da inclusão, da sensibilidade e da diversidade de ideias.
Hoje, seu legado continua vivo nas universidades, nos hospitais, nos movimentos sociais e em cada mulher que, ao seguir sua vocação, transforma o mundo à sua volta.
Por Graziela Matoso/ Com informações da Forbes Brasil/ foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
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