Introdução
A Páscoa, que será comemorada no próximo domingo (05/04), é para os cristãos, a celebração da ressurreição, da vitória da vida sobre a morte e da esperança que renasce após a dor. Para além do sentido estritamente religioso, esse período convida à pausa, à reflexão e à revisão de caminhos — movimentos profundamente ligados à dimensão psicológica do recomeço. Em meio à correria cotidiana, a simbologia pascal propõe algo raro e necessário: olhar para dentro, reconhecer feridas e permitir-se iniciar um novo ciclo. Mas por que a mensagem da Páscoa encontra eco tão direto nos processos estudados pela psicologia sobre mudança, cura emocional e reconstrução interior?
1. O sentido do sofrimento e a possibilidade de recomeçar
O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e criador da Logoterapia, defendia que o ser humano é capaz de encontrar sentido mesmo nas experiências mais dolorosas. Para Frankl, não é o sofrimento em si que destrói, mas a ausência de significado atribuído a ele. Sua própria trajetória pessoal deu base concreta a essa compreensão: mesmo em cenários extremos, ele observou que aqueles que encontravam um propósito conseguiam resistir psicologicamente.
A narrativa pascal — que atravessa dor, sacrifício e, por fim, ressurreição — dialoga diretamente com essa ideia. Psicologicamente, trata-se da compreensão de que momentos difíceis podem ser pontos de virada. A dor não é o fim da história; pode ser o início de uma reconstrução mais consciente e significativa, em que o indivíduo ressignifica experiências e encontra novas razões para seguir.
2. Perdão, aceitação e libertação emocional
O psicólogo humanista Carl Rogers defendia que a aceitação genuína de si mesmo é o primeiro passo para qualquer mudança real. Para Rogers, a transformação acontece quando a pessoa se sente acolhida — inclusive por si. Esse acolhimento interno reduz conflitos psíquicos e abre espaço para atitudes mais saudáveis.
A Páscoa traz, em sua essência, mensagens de perdão, reconciliação e renovação. Do ponto de vista psicológico, o perdão não é apenas um gesto moral, mas um mecanismo poderoso de libertação emocional. Perdoar — a si e aos outros — reduz cargas psíquicas, rompe ciclos de culpa e permite que o indivíduo siga adiante sem o peso constante do passado. Esse movimento é essencial para qualquer processo de recomeço, pois ninguém consegue iniciar uma nova etapa carregando ressentimentos antigos.
3. Esperança como ferramenta de saúde mental
O psicólogo norte-americano Martin Seligman, precursor da Psicologia Positiva, destaca a esperança como um dos pilares do bem-estar emocional. A capacidade de acreditar que o futuro pode ser melhor influencia diretamente a forma como as pessoas enfrentam desafios e superam crises. A esperança, segundo Seligman, não é ingenuidade, mas uma estratégia cognitiva que fortalece a resiliência. Essa perspectiva encontra eco também nos estudos da pesquisadora Brené Brown, que relaciona vulnerabilidade, coragem e reconstrução emocional. Para Brown, reconhecer fragilidades é condição essencial para desenvolver força interior e reconstruir a própria história.
A mensagem central da Páscoa é, justamente, a esperança renovada após um período de dor. Psicologicamente, essa simbologia favorece a reconstrução interna, estimula novas atitudes e incentiva o indivíduo a acreditar que recomeçar é possível, mesmo depois de experiências difíceis.
Considerações finais
A Páscoa, portanto, não se limita a uma celebração religiosa ou cultural. Sua simbologia encontra respaldo em importantes teorias psicológicas que tratam do sentido do sofrimento, do poder do perdão, da vulnerabilidade e da força da esperança. Ao propor a ideia de ressurreição, a mensagem pascal dialoga diretamente com a capacidade humana de se reinventar, de cicatrizar feridas emocionais e de iniciar novos capítulos.
Mais do que recordar um acontecimento central da fé cristã, a Páscoa convida cada pessoa a viver sua própria experiência de recomeço — interna, silenciosa e profundamente transformadora, em que reconhecer a dor, aceitar a própria humanidade e cultivar a esperança tornam-se passos essenciais para uma vida emocionalmente mais saudável e significativa.
Por Eduardo Souza – Colunista Jornal Panorama
Imagem: FreePik/Imagem Ilustrativa
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