Durante o tratamento contra o câncer, especialmente em pacientes submetidos à quimioterapia e à radioterapia, a saúde bucal exige atenção especial. A mucosite oral, uma das complicações que podem surgir nesse período, provoca lesões dolorosas na boca e pode comprometer significativamente a alimentação, a hidratação e a qualidade de vida.
Com o objetivo de ampliar a informação sobre o problema e destacar a importância dos cuidados preventivos, o Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI), integrante da Rede HU Brasil, promove a campanha Julho Bordô.
A condição pode provocar vermelhidão, inchaço e o aparecimento de feridas e ulcerações na mucosa da boca. Em situações mais graves, as lesões dificultam atividades simples, como falar, comer e ingerir líquidos, além de favorecer infecções.
De acordo com a cirurgiã-dentista do HU-UFPI, Waleria Ferraz Lima, a ocorrência da mucosite é elevada entre pacientes submetidos a determinados tratamentos oncológicos. A complicação pode atingir de 80% a 100% dos pacientes que passam por radioterapia na região da cabeça e do pescoço. Entre aqueles que recebem altas doses de quimioterapia, a incidência varia de 60% a 90%, enquanto na quimioterapia convencional fica entre 20% e 40%.
Os primeiros sinais geralmente aparecem entre cinco e dez dias após o início da quimioterapia. Nos casos de radioterapia, os sintomas costumam surgir entre duas e três semanas depois do começo do tratamento.
Impacto na alimentação e na saúde
A paciente Odineia Sousa Sobrinho, de 67 anos, vivenciou as consequências da mucosite durante o tratamento contra o câncer. Segundo seu relato, o problema começou com uma forte sensação de queimação e aumento da sensibilidade na boca. As lesões avançaram até a garganta, dificultando tanto a alimentação quanto a ingestão de água.
A gravidade do quadro fez com que a paciente precisasse ser internada por causa da desidratação. Posteriormente, ela foi encaminhada para o serviço de odontologia oncológica do HU-UFPI, onde passou a receber acompanhamento especializado.
Além da dor e do desconforto, a mucosite pode representar riscos importantes para pacientes que estão com o sistema imunológico comprometido. As lesões na boca podem facilitar a entrada de bactérias e fungos no organismo e aumentar o risco de infecções graves, inclusive sepse.
Nos quadros mais intensos, a dificuldade para se alimentar e beber líquidos pode provocar desnutrição e desidratação. Em algumas situações, a gravidade da mucosite pode levar até mesmo à interrupção temporária do tratamento contra o câncer, com impactos no prognóstico e na qualidade de vida.
Prevenção é fundamental
A orientação dos especialistas é que os cuidados com a saúde bucal comecem antes do início do tratamento oncológico. A avaliação odontológica preventiva permite identificar e tratar possíveis problemas e estabelecer medidas para reduzir as complicações.
O acompanhamento deve envolver diferentes profissionais, incluindo as equipes de oncologia, odontologia oncológica, nutrição e enfermagem. Quando a mucosite já está instalada, o objetivo é controlar os sintomas, aliviar a dor e evitar que o quadro se agrave.
No HU-UFPI, uma das estratégias utilizadas é a laserterapia de baixa potência, aplicada de acordo com as necessidades de cada paciente. O recurso pode ser empregado tanto na prevenção quanto no tratamento das lesões provocadas pela mucosite oral.
Entre os cuidados recomendados estão manter uma higiene bucal adequada, realizar a escovação de três a quatro vezes ao dia com escova macia e utilizar creme dental sem laurilsulfato de sódio. Também é importante manter o organismo hidratado e evitar fatores que possam irritar ainda mais a mucosa, como bebidas alcoólicas, cigarro e alimentos muito ácidos, quentes ou condimentados.
Em alguns tratamentos quimioterápicos específicos, a sucção de gelo durante a infusão também pode ser indicada como medida preventiva, conforme orientação da equipe responsável pelo atendimento.
Atendimento especializado
O Serviço de Odontologia Oncológica do HU-UFPI presta atendimento a pacientes acompanhados pela Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (UNACON) do próprio hospital. O serviço também recebe pacientes oncológicos externos encaminhados e regulados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da Atenção Primária e dos Centros de Especialidades Odontológicas (CEO).
A campanha Julho Bordô reforça que a atenção à saúde da boca deve fazer parte do cuidado integral de quem enfrenta o câncer. A prevenção, o diagnóstico precoce e o acompanhamento multiprofissional são importantes para reduzir complicações e contribuir para que o paciente atravesse o tratamento com mais conforto e segurança.
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